O que se esconde e se revela - 34º Programa de Exposições do CCSP 2025 | Por Marcio Harum
O caminho de Dani Shirozono surge do encontro de memórias particulares com a visão humana acerca de relevos de superfície. Com variação de escalas, seus processos artísticos delineiam paisagens imaginárias com referências a um ethos nipônico indelével. A mostra ‘O que se esconde e se revela’ cobre um período de sua produção entre 2019 e 2025, abarcando propriamente a quarentena pandêmica em si, e culmina recentemente, tendo o ápice com uma viagem para o avistamento do Monte Fuji, no Japão e a conclusão de seu mestrado.
Os seis trabalhos em exibição são reunidos pelo conceito do miegakure, que diz respeito ao que é visto, mas que ainda assim, em um primeiro contato, algo permanece oculto, – como quando, por exemplo, ao piscar de olhos, microelementos tomam novas formas e disposições. Pela construção de camadas imersivas de parafina, resina e carvão, os relevos de Shirozono assemelham-se às montanhas, colinas e serras com neblina do inconsciente coletivo, aos jardins coletados em nosso próprio cosmos íntimo, tão singularmente observados em cartões-postais, posters e pinturas tipicamente japonesas. O yohaku, ou o espaço vazio, como no zen, é a beleza transformadora do nada, e traduz a busca de sensibilidade da artista, ao rebater a impressão ocidental de ocupar espaços e preencher silêncios a qualquer custo.
Com a obra ‘Aqui me protejo’, 2021, vemos a menção da primeira habitação ser um relevo ou o lar onde nascemos e vivemos, “o canto do mundo”, como diz a artista. É lá mesmo, onde ela estabelece sua casa de origem, uma área identitária e vital para as suas paisagens e passagens. Já com ‘Permaneço para me nutrir’, 2022, além da moradia, esta série de trabalhos lida com as mudanças biográficas através de caixas com aspecto adquirido de pequenas gavetas, – uma reflexão acerca da dimensão doméstica da nutrição e da proteção. A casa é aqui tratada, simbolicamente, por peças como: baús, janelas e instrumentos de guarda e armazenamento; justo aqueles que são facilmente segurados e transportados.
As pinturas que compõem De Passagem, 2019 - 2022, não tomam partido de uma perspectiva linear como técnica principal de paisagem. Sua variedade cromática de tons cinzentos acontece pelo contraste de materiais como: nanquim, parafina e papel vegetal. Quando o desenho é sobre papel, o pincel parece deslizar a tinta sumi como flashes de contornos e silhuetas ancestrais, percorrendo sem rumo o suporte, por desconhecimento do curso a seguir.
Como um shōji, aquelas divisórias de correr feitas de estrutura de madeira e papel translúcido, utilizadas para o deslocamento entre os espaços de dentro e fora de uma residência, a cadeia múltipla e sobreposta de relevos da exposição deDani Shirozono convoca a nossa percepção para o vão das relações de sentido entre os objetos do mundo real, estético e espiritual, tornando casa o caminho.
Ateliê Aberto - Canteiro, Campo de Produção em Arte Contemporânea 2023 | Por Guilherme Guimarães
Há quem se engane que isso, esse grande experimento de Dani Shirozono, se passe tão somente de um convite ao ateliê. Somos encorajados a entrar em uma espécie de útero poético, de máquina do mundo — de Shirozono. Entra-se por um caminho em que os olhos se somam aos outros sentidos e buscam acessos que enveredam a uma figura cíclica, a artista.
“Etnóloga de si mesma”, a frase, que a artista se apropria da autora Annie Ernaux e modifica, é a condutora do exercício. Enquanto na da escritora notamos uma pulsão do eu individual, Shirozono exprime um eu plural, um eu coletivo, em que diversas vozes e memórias, por vezes alheias, constroem essas passagens e paisagens. Como um ser hipotético, o qual podemos ou não fazer/querer ser parte, mas que, indiferentes a isso, somos uma célula desse sistema complexo. Tal qual um enxame de abelhas (por ora, também hipotético) que acumula na caixa racional todas as reminiscências do entorno, uma vista em silhueta e árida, como uma memória embaçada e nebulosa.
O vermelho e o dourado são guias nesse caminho, ora como uma linha ancestral que percorre as obras e garante essa união, ora como momentos de lucidez, de memórias que se sobrepõem na vastidão ou que são de reposição de um estado pleno (formado por boas e/ou más memórias), uma emenda de ouro. A frase “você é radical”, sempre repetida à artista por sua mãe, reluz nessas manchas opacas, tal um farol: ser mulher e ser radical. Essa opacidade que marca o grande véu, que percorre os lugares da casa, que infiltram no “si mesma”, e é neste momento que a linha vermelha e a cor dourada são conducentes para uma revisão.
Ademais, como rever? Através da compilação de relatos de pessoas com ascendência japonesa, Dani Shirozono questiona as agressões cotidianas, as que estão em qualquer lugar onde não espera. E, como um brincar, as transforma em um manual de instrução do que fazer: feitas de um material precário como o papel, a partir do origami, a artista produz essas armas possíveis. Também põe em mãos de quem atrever passear por seu experimento a chance de produzir a sua própria possível arma por meio das dobras que lá já estão. Aqui, na dobradura preexistente, volto às reminiscências que percorrem esse espaço.
Andar por esse espaço é então exercício de todos os sentidos. Sentem-se à mesa, sintam o cheiro do café, bebam, olhem o diante, escutem e se infiltrem na família da artista, façam das memórias deles as suas. Esse é o exercício da memória como um enxame hipotético. Shirozono vai remontando a família, os lugares onde passaram, os sentimentos, ao tom coloquial, mas nas entrelinhas estão as agressões e as armas possíveis. Dessa forma, concebam com a artista todas as veredas que estão nesse espaço suspenso e cíclico, disfarçado de convite ao ateliê.